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Obras do PAC causam transtornos

Moradores reclamam que ruas asfaltadas foram quebradas e poeira toma conta das residências
Presidente de bairro diz que não tem vontade de sair na rua, porque sabe que será cobrado e não tem mais o que dizer

Nadja Vasques
Da Redação

As obras de rede de esgoto realizadas no Santa Amália, Jardim Araçá, Santa Angelita e Flamboyant, com recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), estão causando transtornos aos milhares de moradores desses bairros. Sem planejamento ou cronograma, ruas asfaltadas foram quebradas e a poeira toma conta de todas as vias. O problema, que em alguns bairros existe há mais de 90 dias, já interfere no transporte coletivo, na coleta de lixo, no consumo de água e na rotina dos moradores, que deixam as casas fechadas em uma guerra perdida contra a sujeira.

No Jardim Araçá, moradores contam que esperaram vários anos pelo asfalto, que chegou no final do ano passado. Mas a novidade não durou 8 meses, porque as obras da rede de esgoto quebraram o asfalto novo e agora eles são obrigados a conviver, mais uma vez, com a poeira. É o caso do autônomo Raimundo Braga, 43, que mudou para a rua B em 1996. Depois de 22 anos ele viu o asfalto chegar, mas agora a frente da casa dele está de novo no chão batido. "Minha casa vive fechada e mesmo assim está imunda", critica Raimundo, que também denuncia a falta de planejamento das obras. "Eles vieram aqui e abriram todas as ruas, de uma vez, porque não fechavam uma antes de abrir outra?".

O itinerário dos ônibus que atendem o bairro muda todo dia, de acordo com a situação das vias. Passageiros não sabem onde pegar o ônibus no dia seguinte, para a escola ou trabalho. O motorista de lotação Paulo Gonçalves desistiu de trafegar pela rua A, a principal do bairro, cheia de buracos. Muda o trajeto diariamente. "Essa buraqueira está um sofrimento. Os buracos fundos e as valetas não deixam a gente parar no ponto. Estou vivendo isso há 3 meses e não aguento mais".

Com problemas de bronquite, o militar do Exército Evanildo Martins da Fonseca, 46, conta que desde o início das obras, há pouco mais de 2 meses, vive doente. Morador da rua A, ele comprou a casa há 3 anos e já está com vontade de mudar. Explica que muitas ruas do bairro não tiveram nenhuma assistência depois da implantação da rede de esgoto e teme que com ele aconteça a mesma coisa. "O transtorno é muito grande".

Elza da Silva, 52, funcionária pública, diz que a poeira acabou com as plantas dela e com a fachada da casa, que vai precisar de uma pintura ao final das obras. A água só chega à noite e não dura nada, porque segundo ela, as pessoas estão gastando demais molhando as ruas, pois não aguentam a poeira. "Não tenho condições de estender roupa".

Presidente da Associação dos Moradores do Jardim Araçá, Nilton Sousa Toledo diz que as obras começaram de repente e que não houve uma reunião prévia com a comunidade para discutir o planejamento e o cronograma das obras. Dessa forma, ele diz que não tem como fiscalizar o serviço. Depois de ouvir reclamações de tantos moradores, a associação se reuniu com representantes da Prefeitura de Cuiabá, que prometeram entregar a obra em 30 dias. O prazo já venceu e ninguém apareceu para dar satisfação. "Todas as ruas do bairro estão quebradas e não sei a quem recorrer. Tem dia que eu não tenho vontade de sair na rua, porque sei que vou ser cobrado e não tenho mais o que dizer".

Irregularidades denunciadas - A Associação dos Moradores do Santa Amália busca apoio de instituições de defesa do cidadão para tentar resolver os problemas trazidos com as obras de rede de esgoto do PAC. Documento denunciando diversas irregularidades nas obras foi encaminhado ao Ministério Público Estadual (MPE), Ministério Público Federal (MPF), Tribunal de Contas do Estado (TCE), Tribunal de Contas da União (TCU), Assembleia Legislativa e Caixa Econômica Federal, com cópia para a Prefeitura de Cuiabá.

Os transtornos causados pelas obras do PAC no Santa Amália são semelhantes aos de outros bairros da região. A diferença é que as obras no local começaram antes, em fevereiro, e até hoje não terminaram. Duas reuniões foram realizadas entre a prefeitura e os moradores. Na última, há cerca de 30 dias, conforme o presidente da entidade, Leandro Adonis Lima Payão Bassan, a prefeitura teria prometido finalizar as obras em uma semana. Também teria anotado problemas pontuais de alguns moradores, garantindo que seriam resolvidos, mas até hoje nada aconteceu.

"Eles abriram um monte de ruas e não terminaram nenhuma, há detritos espalhados por todo o bairro, tem gente que não consegue chegar em casa, uma buraqueira danada, poeira, e tem rua onde eles ainda nem começaram os trabalhos", aponta o presidente da associação.

A funcionária pública Enir Vasconcelos, 60, lida com o transtorno das obras na frente da casa dela há 2 meses. Ela conta que as empresas quebraram o asfalto para colocar a rede de esgoto, mas não fizeram a ligação. O resultado foi que a rua teve que ser aberta novamente, para a 2ª etapa da obra. "Minha casa fica fechada o dia inteiro e está imunda, fico até com vergonha".

Na avaliação dela, o problema é que a obra não teve planejamento, programação e, pior, fiscalização. "Tudo na vida precisa ser planejado".

Mais revoltado está José Vicente Saraiva Dantas, 25, proprietário do Armazém DS, que fica na rua Professora Neusa Lula Rodrigues, em frente ao Residencial Canachuê. Ele diz que uma empresa colocou a rede em uma rua, e outra empresa, na rua transversal. O resultado foi que, no encontro das ruas, na esquina onde funciona o armazém, ficou um buraco enorme, onde os veículos atolam, e cada empresa coloca a responsabilidade do problema na outra. "Perdi 90% do meu movimento, ninguém quer parar aqui, por causa do buraco e da poeira".

Outro lado - O coordenador do PAC em Cuiabá, Aparecido Alves, promete finalizar as obras na região do Jardim Araçá, Santa Amália, Santa Angelita e Flamboyant até o final de julho. Alves reconhece que obras complexas como implementação de rede coletora de esgoto, que causam transtornos à população, devem ser discutidas preliminarmente com a comunidade.

Alves também avalia que a situação no Santa Amália foi mais grave porque as obras tiveram início no período das chuvas, o que resultou na ocorrência de lama por todo o bairro. "Como temos que quebrar o asfalto, quando chove vira lama e quando está seco temos a poeira".

No cronograma estabelecido pela coordenadoria do PAC está previsto, para início imediato, asfalto na rua A do Flamboyant, e preparação das ruas C e E. No Araçá, asfalto na rua C, por onde passam os ônibus, e preparação da rua N. No Santa Amália estão sendo preparadas para asfalto a rua Professora Neusa Lula Rodrigues (principal) e as coletoras 5 e 7.

A partir de hoje, as 5 equipes que atuam nas obras do PAC vão receber 10 toneladas de asfalto por dia para fazer a reconstituição das ruas que foram cortadas para a instalação da rede de esgoto. "Até o final de julho tudo o que foi cortado será recuperado".

Paralelamente, Alves diz que a Secretaria Municipal de Infraestrutura estará realizando a operação tapa-buraco nesses bairros, para corrigir infiltrações que não fazem parte das obras do PAC.

Diário de Cuiabá - Jornal - MT - 06/07/2009