Empresas locais tratam menos que a Sabesp; em Guarulhos, 25% da população não tem nem coleta
Eduardo Reina e Paulo Saldaña
Além da poluição da capital, a cada dia a Região Metropolitana de São Paulo recebe mais de 394 milhões de litros de esgoto não tratado em seus rios e córregos, equivalentes a 83% do total produzido em seis municípios da Grande São Paulo atendidos por companhias de saneamento que não a Sabesp: Santo André, São Caetano do Sul, Diadema, Mauá, Mogi das Cruzes e Osasco. A população desses municípios (quase 4 milhões de habitantes) gera 477,359 milhões de litros de esgoto a cada 24 horas e apenas 17% passam por tratamento.
A situação mais grave é a de Guarulhos. Com a maior população entre essas cidades, com mais de 1,2 milhão de habitantes, o município não trata uma gota dos 213,6 milhões de litros de esgoto produzidos diariamente. Cerca de 25% desse total sequer é coletado. Em Mauá, o sistema de saneamento está sob a responsabilidade da iniciativa privada, mas apenas 3% dos dejetos passam por tratamento - pouco para a cidade que produz 47,4 milhões de litros por dia.
Apesar da situação calamitosa, as prefeituras têm boas perspectivas para avanços no tratamento. Guarulhos planeja alcançar, até 2013, capacidade para tratar 70% do esgoto da cidade. De acordo com informações da Assessoria de Imprensa do Serviço Autônomo de Água e Esgoto (Saae), serão investidos nos próximos cinco anos R$ 249,3 milhões no sistema. Os recursos virão do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), da Fundação Nacional de Saúde (Funasa) e de verbas municipais.
Em Mauá, a meta é conseguir tratar 90% do esgoto produzido até 2013. O investimento no município não é tão expressivo. Aproximadamente R$ 50 milhões, segundo a Assessoria de Imprensa da Empresa Concessionária de Saneamento de Mauá (Ecosama). Os recursos viriam da concessionária e de financiamento obtido com a Caixa Econômica Federal.
Sem uma estação de tratamento local, Santo André depende de obras da Sabesp para levar seus dejetos para a estação da tratamento ABC. "Ainda não temos uma estação de tratamento. Redes coletoras dependem de obras da Sabesp, que já está desenvolvendo projetos", observa a diretora do Departamento de Planejamento e Obras do Serviço Municipal de Saneamento Ambiental de Santo André (Semasa), Soraia Dias.
A cidade que vive a melhor situação é São Caetano do Sul, onde são coletados quase todos os 30,2 milhões de litros produzidos diariamente. Desse total, 80% são tratados. De acordo com o chefe da Divisão Técnica do Departamento de Água e Esgoto (DAE), Sandro Fortunato Casini, já em dezembro o município conseguirá tratar praticamente 100% do esgoto, "com o remanejamento e implementação de dois emissários". O custo do projeto é de cerca de R$ 5,3 milhões, com parte financiada pela Caixa Econômica Federal, dentro do Programa Saneamento para Todos, e parte bancada pelo próprio DAE.
Em todo o território nacional, a situação é pior ainda. A universalização do acesso à rede de coleta de esgoto só atingirá 100% da população daqui a 115 anos, se mantidos os atuais níveis de investimento no setor - 0,22% do Produto Interno Bruto (PIB), de acordo com dados divulgados pelo Instituto Trata Brasil, em parceria com a Fundação Getúlio Vargas (FGV). O Brasil ocupa a 67º posição no ranking mundial de países com acesso a esgoto, de acordo com dados das Nações Unidos, atendendo a 47% da população.
Sabesp coleta esgoto e joga nos rios (O ESTADO DE S. PAULO)
1,27 bilhão de litros/dia de resíduos jorram por 6.670 pontos; 1/4 dos dejetos metropolitanos acaba em cursos d'água
Eduardo Reina
Parte dos habitantes da Região Metropolitana de São Paulo atendidos pela Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) paga a coleta e o tratamento de esgotos, mas a empresa joga tudo, in natura, nos rios e córregos, por falta de coletores, interceptores e emissários. Esses pontos de poluição são chamados pela empresa de lançamentos provisórios, mas sempre existiram. Há 6.670 pontos, que jogam em cursos d'água 1,27 bilhão de litros/dia e deverão estar totalmente ligados aos coletores só em 2018. A Sabesp justifica-se, dizendo que 3.470 pontos foram conectados à rede nos últimos anos, baixando o despejo em 1,41 bilhão de litros/dia - anteriormente eram 10.140 pontos de poluição.
Para piorar, as seis cidades da Região Metropolitana que têm serviço próprio de água e esgoto - Santo André, São Caetano do Sul, Diadema, Mauá, Guarulhos e Mogi das Cruzes - não conseguem tratar seus dejetos e também despejam mais de 394 milhões de litros de detritos todos os dias em rios e ribeirões. E há ainda as 100 mil ligações clandestinas de esgotos na capital que jorram a cada 24 horas mais 500 mil litros de sujeira nesses mesmos cursos d'água. As bacias dos Rios Tietê, Pinheiros e Tamanduateí, na Grande São Paulo, recebem cerca de 26,8% de todo o esgoto metropolitano (4,32 bilhões litros/segundo), fora a sujeira que vem das ruas. E 15% da população sequer conta com os dejetos coletados.
O mapeamento dos pontos de despejo feito pela Sabesp coloca um ponto vermelho em cada um dos locais de lançamento. A quantidade é tão grande que, internamente, ganhou o nome de "mapa catapora". "É uma vergonha que a sede da maior empresa de saneamento da América Latina esteja numa cidade que fede a esgoto", afirma o presidente, Gesner Oliveira.
A Região Metropolitana produz todos os dias algo em torno de 50 mil litros de esgoto por segundo. Efetivamente são tratados nas cinco estações de tratamento de esgotos (ETEs) - ABC, Barueri, Parque Novo Mundo, São Miguel e Suzano - 13,5 mil litros por segundo. Entretanto, a capacidade efetiva de tratamento dessas ETEs é de 18 mil litros/segundo. "Daqui a dez anos será inaceitável passar pelas Marginais e sentir fedor. É preciso resolver o problema do esgotamento sanitário", admite Gesner. Para tanto, uma das apostas da companhia ainda é o Projeto Tietê, para limpar os rios e coletar e tratar todo o esgoto na Grande São Paulo até 2018.
De acordo com o engenheiro Julio Cerqueira Cesar Neto, da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental, são dois os motivos que impedem a utilização total da capacidade de tratamento. Primeiramente, a deficiência das canalizações que deveriam transportar os esgotos das redes coletoras para áreas de tratamento. Faltam coletores-tronco (tubulações instaladas ao lado dos córregos), interceptadores (tubulações assentadas ao lado dos rios) e emissários. "A Sabesp, desde a fundação em 1973, até o início do Projeto Tietê, na década de 90, se preocupou em construir apenas as pontas do sistema: as redes coletoras e as estações de tratamento. Evidentemente as redes coletoras foram executadas despejando os esgotos in natura nos córregos."
Só após a passagem pela estações o produto é devolvido, em boas condições - segundo a Sabesp -, ao meio ambiente ou destinado ao reúso. Um estudo do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas também mostra que cada R$ 1 investido em saneamento representa uma economia de R$ 4 em gastos com saúde.
Estado aposta em obra de R$ 1 bi (O ESTADO DE S. PAULO)
Meta é 100% de coleta e tratamento até 2018; 80% do financiamento depende do aval do BID
Eduardo Reina
A Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) tem como meta universalizar a coleta e o tratamento de esgotos na Região Metropolitana de São Paulo até 2018. Para tanto, prepara a fase 3 do Projeto Tietê. Hoje, técnicos do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) estarão em São Paulo para analisar o programa e dar o aval para um empréstimo de US$ 800 milhões, escalonado até 2014. Outros US$ 200 milhões ficarão como contrapartida do governo do Estado. Um terço da poluição do Rio Tietê tem como origem o lixo jogado nas ruas, de acordo com a Sabesp. A meta do governo é que 100% da população teria todo o esgoto coletado e tratado no fim da próxima década.
Nas duas primeiras etapas do Projeto Tietê, iniciado em 1992, foram eliminados 2.250 pontos de extravasamento nos rios e córregos, segundo o assistente-executivo da Diretoria de Tecnologia, Empreendimento e Meio Ambiente, Antonio César Costa e Silva. Nessas duas fases passaram a ser recolhidos os dejetos de 1,8 milhão de pessoas e efetivamente tratados os resíduos de 1,6 milhão. Desde o início do projeto, já houve redução de 120 quilômetros na mancha de esgotos do Tietê.
"Na terceira etapa, que começará nos próximos meses, mais 2.500 pontos serão conectados à rede", afirma Silva. A expectativa é atender mais 1,5 milhão de habitantes com coleta e 3 milhões com tratamento.
A Prefeitura também age na limpeza dos ribeirões locais. O Programa Córrego Limpo prevê despoluir mais 1.100 corpos de água em todo Município, em parceria com o Estado. Entre as áreas que já passaram pelo projeto estão o Córrego do Sapateiro, no Ibirapuera, zona sul, e o lago do Horto Florestal, na zona norte. "E está em fase de conclusão o trabalho de conexão de mais de cem grandes lançadores, que vertiam mais de 2 mil litros por segundo de esgoto no Rio Pinheiros", diz Silva.
POLUIÇÃO DIFUSA
O trabalho de conexão dos ramais aos troncos coletores, interceptores e emissários, segundo a Sabesp, nunca vai terminar. "O desafio é imenso. A cada ano, a cidade de São Paulo cresce com a chegada de 200 mil a 300 mil pessoas. Mesmo após a ligação de todos à rede, será preciso ter uma limpeza urbana mais eficiente, com melhor coleta de lixo, pois a poluição difusa (sujeira que vai para os rios) cresce quando se limpa o esgoto", explicou o técnico. Dados da Sabesp mostram que as cinco estações da tratamento da empresa têm juntas capacidade de atendimento de 8,4 milhões. Os 39 municípios da Região Metropolitana somam quase 20 milhões.
O grau de poluição difusa está relacionado com os hábitos higiênicos da população, o nível de educação sanitária e ambiental dos moradores de uma cidade. Esse tipo de poluição é o resultado do lançamento sem tratamento de águas residuárias de qualquer natureza que não chegam, como deveriam, a uma estação de tratamento de esgotos. São águas pluviais contaminadas com a sujeira das ruas e esgotos lançados clandestinamente nas galerias de água. "A poluição difusa na Região Metropolitana é de tal monta que mesmo se todos os esgotos sanitários e despejos industriais fossem tratados nossos rios estariam poluídos", diz o engenheiro José Eduardo Cavalcanti, do Instituto de Engenharia.