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Traço de Concreto: a importância do cimento

Tipo de obra é uma das características que influencia na especificação do cimento ideal

Conhecer a quantidade de cimento a ser adicionada na mistura é importante porque a resistência dependerá da relação água/cimento
Créditos: anat chant /shutterstock.com

Dando continuidade à série especial de matérias sobre o traço de concreto, este texto aborda a importância do cimento, aglomerante responsável por unir os demais insumos. O material é referência na preparação da massa, já que a quantidade dos demais elementos é calculada levando em consideração o volume de um saco de cimento.

“Conhecer exatamente o montante de cimento a ser adicionado na mistura é importante porque a resistência dependerá da relação água/cimento, ou seja, quanto menos água e mais cimento, mais resistente será o concreto”, explica o engenheiro Luiz de Brito Prado Vieira, consultor técnico de P&D e Qualidade da Votorantim Cimentos.

É importante saber que a resistência do concreto depende muito pouco do tipo ou demais propriedades do cimento, pois essa característica pode ser alterada com o uso de aditivos. Os aditivos podem ser usados para reduzir a relação água/cimento, aumentando a resistência e a durabilidade; ou, ainda, acelerar ou retardar o tempo de pega do concreto.

Tipos de cimento x tipos de obras

Segundo um boletim técnico publicado pela Associação Brasileira de Cimento Portland (ABCP), os cimentos são classificados em função de sua composição. Aqueles mais populares na construção civil nacional são: comum, composto, de alto-forno e pozolânico. Entretanto, existem ainda muitos outros tipos, como os de alta resistência inicial, resistentes aos sulfatos, branco, de baixo calor de hidratação (CP IV) e aqueles específicos para poços petrolíferos. Todos os materiais citados contam com normas técnicas da ABNT.

“O tipo de cimento tem influência relativa no traço quando falamos em resistência mecânica. Existem, porém, alguns cimentos mais indicados para determinadas situações”, observa o consultor. Por exemplo, em uma obra de estação de esgoto ou de rede pluvial, onde estão presentes águas sulfatadas, devem ser empregados cimentos resistentes a sulfatos. De acordo com a norma ABNT NBR 5737 – Cimentos Portland resistentes a sulfatos, qualquer um dos cinco tipos básicos (CP I, CP II, CP lII, CP IV e CP V-ARI) podem ser considerados resistentes aos sulfatos, desde que obedeçam a algumas condições. É o caso dos cimentos do tipo alto-forno que devem conter entre 60% e 70% de escória granulada de alto-forno, em massa; já no tipo pozolânico, esses índices variam de 25% a 40%.

Quando o cimento requerido não estiver disponível no mercado, é possível adotar outras providências. Isso demanda conhecimento mais aprofundado, inclusive sobre as demais soluções tecnológicas para substituí-lo. “Trata-se de conhecimento que não é de domínio do setor da construção civil, ficando restrito às boas cimenteiras, concreteiras, laboratórios de ensaios e alguns consultores”, analisa o engenheiro.

A escolha do tipo ideal de cimento também é responsável por eliminar futuras patologias. O aumento da temperatura no interior de grandes estruturas de concreto, devido ao calor desenvolvido durante a hidratação do cimento, pode levar ao aparecimento de fissuras de origem térmica. O problema é evitado se for especificado o cimento de baixo calor de hidratação (CP IV). De acordo com a ABNT NBR 13116 – Cimento Portland de baixo calor de hidratação – Especificação, os produtos desse tipo são aqueles que geram até 260 J/g e até 300 J/g aos três dias e sete dias de hidratação, respectivamente.

“Infelizmente, a maioria dos construtores entende que cimento é uma commodity e desconhece que é possível utilizar soluções técnicas para fazer eventuais substituições. Um exemplo simples é o construtor que acha que precisa utilizar obrigatoriamente o CP V-ARI (de alta resistência inicial) para realizar desformas rápidas. “Trabalhando a composição do concreto junto com soluções tecnológicas, muitas vezes é possível obter um concreto que atenda essa demanda com outro tipo de cimento, com a vantagem financeira”, diz o especialista.

Nomenclatura simplificada

A iniciativa da Votorantim Cimentos de alterar as embalagens de seus produtos, substituindo as nomenclaturas técnicas por uma identificação de mais fácil compreensão – cimento Obras Básicas cimento Obras Estruturais, por exemplo –, faz com que o consumidor perceba que há cimentos apropriados para cada tipo de construção. “Quando alguém faz uma obra autogerida, normalmente não tem acesso às tecnologias, ensaios e nem a alguns insumos que poderiam ser empregados. Portanto, essa nova maneira de informar sobre a especificidade do cimento facilita a escolha da melhor opção em função das necessidades da obra”, explica Vieira.

Cálculos

O uso do cimento mais recomendado não garante que o concreto seja preparado da forma mais correta. É preciso ter um engenheiro supervisionando e boas técnicas de construção. “De maneira geral, o concreto em obras autogeridas poderia ser melhor utilizado no Brasil”, analisa Vieira. Segundo ele, para uma edificação atingir longevidade, é necessário adotar uma série de cuidados, começando pelo projeto e especificação do produto adequado para cada aplicação.

Para calcular a quantidade de cimento na preparação do concreto, a recomendação é utilizar o método de dosagem do Ibracon (Instituto Brasileiro do Concreto). Basicamente, é importante analisar as características de cada insumo utilizado e as quantidades de água e cimento necessárias para atingir a resistência ideal. “Não se pode esquecer que a resistência do concreto é inversamente proporcional à relação água/cimento. Entretanto, a resistência, por si só, não garante a durabilidade da estrutura, pois essa característica depende de outros fatores como a agressividade do meio ambiente, o tipo de cimento utilizado, condicionantes de projeto e até mesmo da aplicação e cura do concreto”. reforça Vieira

Erros na cura

As obras de concreto são projetadas considerando que o concreto seja adequadamente aplicado e curado. “A aplicação e a cura garante ao concreto atingir todo o seu potencial de resistência se forem desprezados, o concreto poderá não atingir a resistência para qual ele foi dosado, gerando sérios problemas”, aponta Vieira.

Um concreto que aparentemente parece perfeito no estado fresco, mas, quando mal dosado, não vai atingir a resistência desejada ou a durabilidade necessária quando endurecer. “Só é possível saber se o concreto está realmente bom se o concreto for ensaiado de acordo com especificações normativas”, ensina, recomendando que, para eliminar o risco de problemas, toda obra deve sempre contar com o apoio de um especialista.  “A lição é o concreto ideal deve contar com três etapas essenciais: cálculo, tecnologia dos materiais e boa execução da concretagem”, finaliza.

 

Fonte: Mapa da Obra