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Saneamento e inovação

Por que inovar em saneamento é fundamental? Quais os desafios específicos da inovação no setor?

Os bons exemplos de quem está conseguindo pensar o novo para vencer obstáculos no saneamento

Inovação é a palavra do momento. Repetida à exaustão por empresas e governos e ensinada em escolas, universidades e cursos livres, ela está na agenda do dia. Inovação vem de coisa nova, novidade, e em uma cultura como a nossa, que muda em ritmo cada vez mais veloz, ter uma mente orientada para o novo virou necessidade de primeira ordem. Afinal, para dar conta de novos hábitos, comportamentos e necessidades que se criam e recriam em pouquíssimo tempo, é fundamental ter disposição e velocidade para mudar e criar o novo, dia após dia.

No saneamento, a atitude inovadora tem força para trazer uma série de benefícios. É sabido que novos e históricos desafios, como a universalização do acesso aos serviços de distribuição de água e coleta de esgoto, o reúso dos recursos hídricos, a redução de perdas e o financiamento de projetos, permanecem sem, sequer, um caminho claro para a resolução. Pensar diferente pode ser um caminho. E quem tem cultura de inovação, enxerga, nesse rol de problemas, território fértil para a aplicação de novas ideias que podem levar a engenhosas soluções.

O saneamento precisa de inovação. E, neste especial, o Juntos Pela Água explora os desafios específicos de inovar em saneamento, mostra exemplos de quem está conseguindo inovar no setor, e revela que inovação, nem sempre, precisa envolver tecnologia – ela pode vir até da psicologia! Confira o texto, fotos, vídeos, motion graphics e infográfico preparados que preparamos para explorar o tema.

Por que o saneamento precisa de inovação?

“Inovação na gestão de empreendimentos em saneamento”, “Inovação em ETEs (Estações de Tratamento) descentralizadas”, “Inovação aplicada à gestão de perdas”. Esses são apenas três exemplos de sessões e painéis que trataram, diretamente, de inovação em alguma área do saneamento durante o “Congresso Abes/Fenasan 2017”, que acontece anualmente e se descreve como o maior encontro de saneamento ambiental do continente americano. No mesmo evento, pela primeira vez em 2017, foi criado o “Espaço Startup”. Enfim, inovação em saneamento fez parte, de uma forma ou de outra, de praticamente todas as sessões do congresso, realizado pela pela Abes (Associação Brasileira de Engenharia Sanitária) em São Paulo entre os dias 2 e 6 de outubro de 2017.

Inovar é prioridade para o setor. E não é difícil entender por quê. Segundo dados do SNIS de 2015, 35 milhões de brasileiros não dispõem de serviço de abastecimento de água por rede de distribuição enquanto 100 milhões não têm serviço de coleta de esgoto – sendo que apenas 42,7% desse esgoto é tratado. Quase 37% de toda a água tratada produzida no País é perdida na distribuição e não se investe nem metade do que devia ser investido para que o Brasil cumpra a meta estabelecida no Plansab, em 2013, de universalizar os serviços de saneamento até 2033. Portanto, há carência tanto na oferta dos serviços de saneamento quanto no investimento para ampliar esse atendimento.

 

O desafio que é inovar em saneamento

Inovar apresenta desafios importantes em qualquer área e, em saneamento, não é diferente. Há, porém, obstáculos específicos à inovação em saneamento. E um dos grandes, segundo parte do inovadores do setor que trabalham, principalmente, com novas soluções tecnológicas, são algumas das limitações impostas pela chamada Lei 8.666/1993, também conhecida como Lei de Licitações. Como os serviços de saneamento são prestados, majoritariamente, por empresas públicas que operam com bilhões de reais do erário, o setor é fortemente regulado. Isso é bom – mais controle sobre gastos públicos evita desvios e mau uso desses recursos.

Mas, ao mesmo tempo que esse controle protege o bem público, ele aumenta a burocracia e diminui a agilidade das operações de saneamento. “Não questiono a importância da lei de licitações e acho que ela é fundamental – mas ela funciona bem para a compra e venda de coisas tangíveis, como mesas e cadeiras”, diz Marília Lara, cofundadora da startup sorocabana Stattus4, que criou o Fluid, um sistema que usa sensores e inteligência artificial para detectar vazamentos em redes de distribuição de água (veja vídeo abaixo).

Inovações em saneamento

“Quando a sua empresa quer vender uma nova tecnologia, sem equivalentes no mercado – o que costuma ser a situação no caso das inovações em saneamento – as coisas se complicam”, afirma Marília. Antes de contratar um serviço, por exemplo, as empresas públicas de saneamento são obrigadas, pela Lei das Licitações, a cotar o serviço com três fornecedores diferentes. “Como encontrar alguém que preste um serviço equivalente ao seu, se você inovou e é a primeira pessoa a prestar esse serviço dessa forma?”, questiona Marília. É possível contornar essa regra, por meio de uma solicitação de uma autorização específica de contratação com dispensa de licitação – mas o processo é igualmente lento e burocrático para evitar abusos.

Para além das dificuldades de legislação, há barreiras culturais às inovações – principalmente as com viés tecnológico – no saneamento. “Por incrível que pareça, em alguns setores ligados às questões ambientais, como é o caso do saneamento, há quem busque uma espécie de pureza natural que dificulta a aplicação de novas tecnologias”, diz o engenheiro José Carlos Mierzwa, pós-doutor pela Escola de Engenharia e Ciências Aplicadas da Universidade Harvard e professor de engenharia hidráulica e ambiental na USP (Universidade de São Paulo). “Isso é um problema por que a busca pela inovação – não só em saneamento – é basicamente trabalhar para resolver antigos problemas de maneira nova e diferente”, afirma. “A inovação está ao mesmo tempo atrelada à compreensão de um desenvolvimento prévio e à flexibilidade para ir além e avançar nesse entendimento.”, diz Mierzwa. “E isso requer grande abertura, coisa que, muitas vezes, não vemos no setor”, afirma.

OS 5 PASSOS DA INOVAÇÃO

Há quem pense que inovar é ter uma boa ideia, mas a boa ideia é só o começo, como mostram os cinco passos da inovação, publicados pelo MIT Sloan Management Review

Passo 1: Concepção da ideia e mobilização

É um processo que envolve, ao mesmo tempo, liberdade para imaginar e pressão para gerar as melhores ideias possíveis. Uma vez criadas, as novas ideias devem trocar de mãos para serem refinadas já nesse primeiro passo do processo.

Passo 2: Defesa e triagem

Pesar os prós e os contras das ideias e eliminar as com menos chance de sucesso. Este processo fica mais ágil com questionários e feedbacks padronizados, que validam ideias boas e justificam o abandono de ideias menos viáveis.

Passo 3: Prototipagem e experimentação

Levar a ideia a campo em testes que revelam se ela funciona para o público e o objetivo originais. Fazer testes para cada parte da ideia em ambientes que permitem ajustes antes da implantação em larga escala.

Passo 4: Comercialização

Buscar o cliente para se certificar de que a ideia realmente resolve a sua “dor”. Avaliar se resolver essa dor para o cliente é economicamente viável para o fornecedor – ou seja, se os custos de criá-la não superam o retorno que ela dará.

Passo 5: Difusão e implementação

Na difusão, a ideia é apresentada e ‘vendida’ para toda a empresa e na implementação, a empresa, que comprou a ideia dessa inovação, se mobiliza para criar os recursos e estruturas necessários para dar vida à ideia.

Quem está inovando em saneamento

Apesar das dificuldades, há quem consiga inovar em saneamento. A própria Stattus4, da Marília Lara, tem trilhado um caminho interessante com o Fluid, um sistema que usa sensores e inteligência artificial para automatizar a detecção de vazamentos em redes de distribuição de água (veja vídeo abaixo). A novidade deu à Stattus4, hoje incubada no Parque Tecnológico de Sorocaba, o Prêmio Startup Assemae (Associação Nacional dos Serviços Municipais) de empresa mais inovadora no setor de saneamento em 2017. A empresa recebeu apoio do programa PIPE/Fapesp (Pesquisa Inovativa de Pequenas Empresas da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) e, atualmente, o produto está em fase de validação em parceria com a Águas de Votorantim, que conduz testes e refinar a versão final.

Capchu

Outro exemplo é o Capchu, um aplicativo que automatiza o dimensionamento de reservatórios de captação e reúso de água da chuva. A novidade foi desenvolvida na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli/USP) e cruza informações como o regime de chuvas local, a área disponível para captação do recurso, as variações na demanda diária pelo líquido e o volume dos reservatórios à disposição para maximizar o aproveitamento dessa fonte. O sistema permite, ainda, o equacionamento do desempenho dos diferentes fatores de captação e até calcula quanto tempo será necessário para amortizar o investimento no aproveitamento das águas pluviais.

O Capchu usa bases de dados abertas, como as oferecidas pelo Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). O diferencial é que o aplicativo não apenas compila, mas trabalha esses dados, cruzando-os com uma série de outras variáveis para entregar uma solução embasada aos seus clientes. A novidade obteve registro no Instituto Nacional da Propriedade Intelectual (INPI) em janeiro de 2017 e será usada, pela primeira vez, no projeto do reservatório do sistema de captação de chuva do Cepeusp (Centro de Práticas Esportivas da Universidade de São Paulo).

 

Psicologia e economia comportamental a serviço do saneamento

A inovação em saneamento não está limitada a desenvolvimentos tecnológicos como o Capchu e o Fluid. Nos últimos anos, até economistas comportamentais e psicólogos têm contribuído com a inovação no setor ao propor novas maneiras de engajar cidades inteiras a se comprometerem com comportamentos mais sustentáveis – como o consumo consciente de recursos hídricos durante uma crise.

Veio de psicólogos e economistas a técnica hoje conhecida como “nudging”, que consiste em praticar pequenas intervenções para promover mudanças de comportamento usando insights da economia comportamental. Em artigo para a série “Pequenas mudanças, grandes impactos: aplicando as ciências do comportamento ao desenvolvimento”, do Banco Mundial, o economista ambiental Juan Jose Miranda relembrou casos de sucesso de uso da técnica em políticas ligadas ao saneamento nos Estados Unidos, Colômbia e Costa Rica.

“As medidas mais comuns para mudar o comportamento do consumidor em situações de crise costumam ser de aumento de preço da água ou de divulgação de campanhas de comunicação que incentivam a redução do consumo”, escreve Miranda. “Mas elas nem sempre funcionam e, às vezes, podem até ter efeito contrário”. Miranda lembra, por exemplo, que em países em desenvolvimento, o aumento de preços pode resultar na frustração e possível revolta dos clientes já que o serviço, muitas vezes, é caro, e o produto entregue, de baixa qualidade.

Redução no consumo

Já as campanhas pela redução no consumo, quando feitas sem o cuidado necessário, costumam levar a picos de demanda. Apavorados com a possibilidade do corte no fornecimento, muitos clientes passam a acumular e estocar água – prática que não só tem efeito inverso ao esperado, mas que também pode trazer graves consequências à saúde pública.

Por outro lado, medidas da economia comportamental têm mostrado resultados positivos, sistematicamente, desde meados dos anos 2000. Elas vêm sendo aplicadas a refinadas mundialmente desde então. Em Bogotá, capital da Colômbia, algumas das ações que funcionaram durante a última seca incluem a divulgação diária do índice de consumo de água da cidade nos principais jornais, campanhas televisivas bem-humoradas com o prefeito e sua mulher tomando banho, sanções leves aos maiores consumidores comerciais e reconhecimento de quem economiza. Até o patrono do principal reservatório da cidade, chamado “San Rafael”, participou de uma divertida ação pelo consumo consciente. “As medidas foram eficientes não só durante a crise – elas perduraram e efetivamente mudaram o comportamento da população nos anos que se seguiram”, diz Miranda.

Diferentemente de boa parte da teoria econômica, a economia comportamental não parte do princípio de que as pessoas são perfeitamente informadas e que agem sempre com objetivo de conseguir o melhor para si mesmas. Na economia comportamental, os limites da racionalidade são reconhecidos e entende-se que há diferentes formas de motivar um comportamento. Nesse sentido, segundo Miranda, a economia comportamental aplicada à proteção ambiental trabalha para mudar o enquadramento e o contexto das escolhas de forma que as consequências dessas escolhas fiquem mais claras. “A economia comportamental pode ajudar as pessoas a tomar decisões melhores tanto para elas quanto para a sociedade”, diz Miranda.

Inovação para financiar iniciativas em saneamento

Uma outra fronteira de inovação em saneamento que está apenas começando a ser explorada é a das novas e diferentes formas de financiar obras no setor. Reformar e adaptar políticas fiscais e tarifárias para facilitar a arrecadação, financiamento e dispêndio de recursos para o saneamento são fundamentais para o cumprimento das metas de universalização. Aliás, segundo o relatório “Global Analysis and Assessment of Sanitation and Drinking-Water” (GLAAS) de 2017, produzido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) a pedido da UN-Water, se o ritmo mundial de aporte de recursos em saneamento continuar como está, a promessa de universalização do acesso a água e esgoto não será cumprida até 2030, quando vencem os prazos para atingir alguns dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.

Fonte:  Portal Tratamento de Água